A escolha da terminologia adequada para se referir a pessoas que vivem em logradouros públicos é crucial para desconstruir estigmas e promover uma compreensão mais precisa de sua realidade. Segundo discussões no âmbito dos direitos humanos e com movimentos sociais, o uso de expressões como “morador de rua” ou “mendigo” é problemático por diversas razões.

O conceito de “morador de rua” sugere que a rua seria uma residência, o que contradiz a realidade de insegurança, falta de privacidade e abrigo que esses espaços oferecem. A rua, como logradouro público, não provê as condições de moradia digna. Além disso, essa expressão pode implicar uma permanência voluntária e fixa, quando, na verdade, a condição é de vulnerabilidade e transitoriedade, passível de mudança.

Da mesma forma, a palavra “mendigo” carrega uma conotação limitante e incorreta. Ela parte do pressuposto de que a principal ou única fonte de sustento dessas pessoas é a mendicância, o que não corresponde à verdade. Grande parte da população em situação de rua possui alguma forma de renda, seja ela formal ou informal, exercendo diversas atividades para sobreviver. A adoção desse termo reforça estereótipos negativos relacionados à produtividade e capacidade individual, invisibilizando o trabalho e a autonomia dessas pessoas.

Movimentos sociais e pessoas com experiência de rua utilizam uma terminologia específica para designar aqueles que não vivem ou não possuem histórico de situação de rua, como forma de demarcar a diferença e as barreiras de acesso a direitos e serviços. Essa distinção ressalta a complexidade de uma realidade onde, por vezes, famílias inteiras se constituem sob as adversidades da vida nas ruas, demonstrando um processo crônico de desestruturação social.

Diante dessas considerações, o termo correto e recomendado por especialistas é “população em situação de rua” ou “pessoa em situação de vulnerabilidade social”. Essa linguagem reflete a transitoriedade da condição e o contexto de vulnerabilidade, em vez de caracterizar a rua como um lar ou a mendicância como o único modo de vida. Essa mudança na nomenclatura é um passo fundamental para uma abordagem mais humana e eficaz das políticas públicas e do acolhimento social.